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Queimaduras químicas - Descontaminação ativa x passiva

As Queimaduras Químicas são responsáveis por muitos acidentes nas indústrias e apresentam certas peculiaridades que as tornam por demais especiais e complexas. 


AUTORES:

Mario G.K. Monteiro, Ph.D. Químico Consultor Científico da Globaltek Especialista em Emergências Químicas, Carlos Alberto Yoshimura, MD Cirurgião Plástico Especialista pela SBCP e SBQ Assistente do Serviço de Cirurgia Plástica e Queimados da Santa Casa de Santos - SP Médico do Trabalho Titular da ANAMT Membro do Comitê Internacional de Queimaduras Químicas da PREVOR – FRANÇA. 

RESUMO: 

As Queimaduras Químicas são responsáveis por muitos acidentes nas indústrias e apresentam certas peculiaridades que as tornam por demais especiais e complexas. As dificuldades vão desde a identificação do agente agressor até a busca de um antídoto específico, no menor tempo possível. As seqüelas decorrentes destes acidentes, têm causado sérios transtornos à sociedade como deformidades,cegueiras, mutilações, incapacidades temporárias ou permanentes, distúrbios comportamentais, passivos trabalhistas e etc.  

Os autores apresentam uma nova forma de abordagem às vítimas de acidentes com produtos químicos, traçando um paralelo entre descontaminação ATIVA (solução anfotérica) x PASSIVA (água), através da revisão de propriedades e dos relatos de casos. Trata-se de um produto desenvolvido na França, por meio de pesquisa em síntese química, que resultou em uma molécula anfótera, polivalente, hipertônica e atóxica, que em uma solução aquosa estéril, apresenta capacidade para reagir, (reação de quelação ), com mais de 880 produtos químicos agressivos ao ser humano como ácidos, bases, agentes oxidantes e redutores, irritantes e solventes.  

A descontaminação dita passiva, ou seja, através do emprego da água, apresenta várias dificuldades e agravantes que serão elencadas pelos autores. A água por ser hipotônica, auxilia o processo de penetração na pele por osmose, agravando ainda mais a lesão. Palavras chaves: queimaduras químicas, descontaminação, anfotérica, Diphoterine, Hexafluorine.

INTRODUÇÃO

Em nosso meio, temos mais de 25.000 produtos químicos corrosivos ou irritantes com potencial para causar uma queimadura química e a mais grave delas é a ocular, podendo resultar em redução ou perda da visão, necessitando, conforme a lesão, de transplante de córnea devido à seriedade e gravidade das mesmas. Cerca de 4% do total das queimaduras são químicas, e destes, cerca de 75% são de origem laboral advindas das indústrias e os 25% restantes são de origem doméstica. 2 As queimaduras químicas, embora menos freqüentes que as térmicas, deixam atrás de si, um rastro de destruição de dimensões muitas vezes desproporcionais.

Queimaduras como a do Ácido Hidrofluorídrico, necessitam de apenas 2 % de superfície corpórea comprometida (por exemplo as duas palmas das mãos), para o êxito letal, face à sua toxicidade. A grande parte destes acidentes ocorrem nas indústrias e trazem repercussões negativas em decorrência das seqüelas e/ou complicações do sinistro, bem como incremento nas casuísticas de passivos trabalhistas e indenizações milionárias. Uma das grandes dificuldades em queimaduras químicas é, com brevidade, correlacionar o respectivo agente neutralizador com o agente químico agressor , bem como proporcionar treinamento adequado à equipe de resgate (atendimento pré-hospitalar) , e à equipe de atendimento hospitalar de emergência, que recorrem na maioria das vezes, apenas ao uso da água, fator complicador nas queimaduras químicas, atualmente falando.  

A problemática relacionada com acidentes do trabalho atinge no Brasil proporção alarmante; dados do INSS até 2004 e estimativas para os dois últimos anos apontam para aproximadamente 500.000 acidentes/ano com 2.700 óbitos/ano (i.e., aprox. 9 mortes/dia) (13) . No entanto, já fomos detentores de estatísticas piores, mas, por meio de ações e medidas de prevenção, obteve-se um perfil decrescente na ocorrência dos acidentes do trabalho, indicando a efetividade dos esforços, a despeito destes dados decepcionantes. 

O engajamento sério dos Empregadores, Governo e Trabalhadores nesta “Cruzada” tem mostrado que compensa investir continuamente em prevenção, conscientização, treinamento e melhoria das condições de trabalho. Agregar novos conhecimentos, técnicas e produtos em prevenção, tem retorno e os produtos contra queimaduras químicas, ajustam-se neste contexto; são novas “ferramentas” de prevenção do mal maior (i.e., as queimaduras químicas) quando outras medidas falham (i.e., o produto químico agressivo atingiu o trabalhador). Os descontaminantes quelantes anfóteros fazem esta diferença, por conta dos excelentes resultados obtidos ao longo destes anos, em países da Europa, Estados Unidos, Escandinávia, Ásia e agora o Brasil.

 Diphoterine® é um produto para primeiros socorros emergenciais na descontaminação de pele e olhos em acidentes com agentes químicos agressivos como ácidos e bases, contendo uma substância ativa não tóxica e não irritante (resultado de pesquisa científica) dissolvida em água que, usado corretamente, atua com eficácia imediata sobre tais agressores, desativando-os, interrompendo seu avanço, aliviando a dor e evitando as consequências da queimadura química que poderiam ocorrer caso não estivesse presente e fosse usado o procedimento de lavagem com água somente. 

Este produto tem natureza anfótera e neutralizante (por meio de quelação), seqüestra irreversivelmente o agente agressor da epiderme, eliminando-o e resultando na interrupção do avanço de queimaduras químicas, sem provocar reação pois é atóxica e não irritante (testes no Safepharm –UK e CIT-França). Além disso, há alívio imediato da dor como conseqüência da ação sequestrante do agressor e não por anestesia. Não é medicamento; não têm ação metabólica, imunológica ou farmacológica. Não age no tecido da epiderme e derme, como o fazem os medicamentos, mas sim no produto agressor, ácido ou álcali (para HF hidratado emprega-se o Hexafluorine®, devido à toxicidade do íon fluoreto. Seu uso suplanta os métodos convencionais de primeiro socorros e tratamento de acidentados (lavagem com água ou uso de tampões ou gluconato de cálcio); há muitas publicações, literaturas técnicas - "papers" -, sobre o assunto. Diphoterine® foi testado em mais de 880 produtos químicos representativos das 6 classes gerais: ácidos, bases, oxidantes, redutores, quelantes e solventes. São inusitadas moléculas estáveis capazes de interação quelante com classes antagônicas de produtos químicos; entretanto, a Prevor descobriu tal estrutura que confere estabilidade em solução aquosa por 2 anos (i.e., prazo de validade de 2 anos). Independente do agente agressor envolvido, para que a descontaminação seja eficiente, é muito importante a agilidade no atendimento do acidentado. Quanto mais rápida for a intervenção, menor será a possibilidade de ocorrer a lesão. Mesmo se houver alguma demora para usá-los, sua ação é incomparavelmente mais efetiva que água ou outro método de pronto socorro para acidentes com produto químico.

 A água não deve ser usada se Diphoterine® estiver disponível e acessível. Mais intensamente do que a queimadura térmica, a química avança pelas células, mesmo afastandose o acidentado da fonte de projeção/vazamento; A água, por ser hipotônica, auxilia este processo de penetração na pele por osmose, além de espalhar ainda mais o agente agressor por áreas sãs, demandar mais tempo e requerer grandes quantidades para o enxágüe . O oposto acontece quando é usado Diphoterine® porque este é mais salino do que o interior da célula (é hipertônico) ou seja, inverte discretamente o fluxo de líquido do interior da célula para fora, fazendo com que o produto agressor seja carreado e expulso. Quando isto acontece o Diphoterine® captura o agressor, realiza uma reação de quelação e o aprisiona em seu interior, neutralizando-o e interrompendo a progressão da queimadura.  

RELATO DE UM CASO – DESCONTAMINAÇÃO ATIVA NÃO IMEDIATA C.V.S.N., sexo masculino, 23 anos, operador industrial, sofreu projeção de ácido nítrico a 63% atingindo toda a face incluindo olhos. Fez uso prévio de água, mesmo após treinamento de orientação para não utilizá-la em casos de acidentes, devendo aplicar o Diphoterine unicamente. Procurou o serviço médico da empresa onde foi descontaminado corretamente com o quelante, inclusive seus olhos. Encaminhado ao hospital de referência conforme protocolo e obteve alta hospitalar após 3 dias.

CONCLUSÃO  

Comparado com situações e acidentes correlatos, a recuperação destes casos (sem cicatrizes e sem seqüelas) não teria sido possível sem usar descontaminação ativa; pode-se creditar tal desdobramento extraordinário ao uso do Diphoterine nos primeiros socorros. Atualmente, com o advento de novas tecnologias , não se pode ignorar uma nova forma de tratamento que visa o socorro das vítimas de queimaduras químicas a nível pré-hospitalar, antecipando e evitando assim, seqüelas irreversíveis a toda uma sociedade. Fica patente então, a superioridade da Descontaminação Ativa (uso do Diphoterine) em relação a Descontaminação Passiva (uso da água), com a quebra de um paradigma. 


12 BIBLIOGRAFIA: 1. Hall A, Blomet J, Mathieu L et al: Diphoterine for emergent decontamination of eye/skin chemical splashes ( Abstract). Presented at the American Industrial Hygiene Conference an Exhibition, Orlando, Fl, may 2000 2. Laboratoir Prevor: List of Chemical Products Tested. Laboratoire Prevor, Valmondois, France. www.prevor.com 3. Schrage , Kompa S, Haller W, Langefeld S. Use of an amphoteric lavege solution for emergency treatment of eye burns. First animal type experimental clinical considerations. Burns 2002; 28:782-6 4. Kuckelkorn R, Schrage NF, Keller G, Redbrake C. Emergency treatment of chemical and thermal eye burns. Acta Ophthalmol Scand. 2002; 80:4-10 5. Kompa S, Schareck B, Tympner J, Wüstemeyer H, Schrage NF. Comparison of emergency eye-wash products in burned porcine eyes. Graefe´s Arch Clin Exp Ophtalmol 2002, 240,308-313 6. Merle H, Donnio A, Ayeboua L, Michel F Thomas F, Ketterle J, Leonard C, Gèrard M. Alkali ocular burns in Martinique ( French West Indies ) Evaluation of amphoteric solution as the rinsing products. Burns. 2005,31,205-211 7. Gérard, M., Merle, H., Chiambaretta, F., Rigal, D., Schrage, N., An amphoteric rinse used in the emergency treatment of serious burn, 2002,28,670-673 8. Mathieu, L., Nehles, J., Blomet, J., Hall, AH. Efficacy of Hexafluorine, for emergent decontamination of hydrofluoric acid eye and skin splashes. Veterinary and Toxicology 2001, 43 (5), 263-265 9. Mathieu, L., Burgher, F., Hall, A.H. Diphoterine chemical splash decontamination solution: skin sensitization study in the guinea pig. Accepted for publication in Cutaneous and Ocular Toxicology 10. Monteiro, M., publicação da Globaltek, artigo descritivo sobre propriedades do Diphoterine Solução de Lavagem e FISPQ do produto (www.globaltek.com.br) 11. Hall, AH., Blomet, J., Mathieu, L. Diphoterine for Emergent Eye/Skin Chemical Splash Decontamination: A Review - Scientific Reviews – Vet.Human Toxicol 44 (4) 228-231 – August 2002 12. Cavallini, M. Toxicological Sciences Supplement, Vol 66 Number 1-S March 2002 page 165, M804 13. Fonte: DATAPREV. CAT 
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